Neste domingo, votarei em Marcelo Freixo. Por quê?

Na escolha entre a possível perpetuação da velha política e a mínima chance de renovação, favoreço a mudança.

29/10/2016 - Thiago Bittencourt

Esclarecimentos: este texto é obra inteiramente da minha cabeça, sem influência direta dos candidatos ou dos responsáveis por suas campanhas. Aqui, está presente apenas a minha opinião, que pode ser, obviamente, diferente de quaisquer outras. Isso, leitor, é normal em democracias.

Candidatos à prefeitura do Rio no segundo turno da eleição de 2016. (Créditos: Reprodução RedeTV)

Esperei, literalmente, até as vésperas do fim dessa eleição municipal para elaborar esse texto. Desde o início do segundo turno, já tendia a votar em Marcelo Freixo, porém queria acompanhar os rumos das campanhas antes de definir o voto em público. Tenha a certeza: apenas lhe escrevo aqui pois a situação política atual praticamente me obrigou. Sempre tive certo receio em apoiar uma candidatura, já que, frequentemente, isso é considerado como incapacidade de criticá-la ao mesmo tempo. Dessa vez, dada a probabilidade de vitória de Crivella, cá estou tentando mostrar às pessoas algumas questões relativas aos candidatos que influenciaram a minha decisão final.

Não idolatro nem Freixo, nem Crivella. No entanto, tenho plena consciência de que, em segundos turnos, as apostas são maiores —agora, um dos candidatos conseguirá o mandato. Invalidar o voto, infelizmente, não muda muita coisa. Creio que muitos concordam quando digo que, nesta eleição, precisamos seguir a regra da “exclusão”. Sem dúvida, isso talvez não seja o que queremos, mas... ao menos, se trata de uma escolha nossa. Acreditem: talvez fosse muito pior caso não tivéssemos a chance de escolher o futuro governante. Em outras eleições, com outros candidatos, pode até ser que minha consciência pedisse por um voto em Crivella — ele não representa necessariamente todo o mal existente no mundo. Entretanto, agora, boa parte dos argumentos me levam a votar em Freixo.

Vi neste segundo turno duas campanhas centradas em acusações. Do lado de Freixo, o ataque a certo passado e certas ideologias de um político de longa data. Do lado de Crivella, o ataque a algumas ideias do rival, e, também, o uso de acusações bem elaboradas quanto a temas de interesse público. O nível de “mentiras” foi tão grande que ambos os candidatos lançaram plataformas online para combater boatos, e acabaram se enrolando em suas justificativas. No entanto, a meu ver, Freixo teve boa capacidade de se explicar, enquanto Crivella, nem tanto. Hoje em dia, por exemplo, sabe-se bem que o candidato do PSOL não quer que o Rio vire uma “praça de guerra”, tal como veiculado numa das propagandas eleitorais (que indivíduo iria querer isso?!). Por outro lado, as revelações de intolerância de Crivella continuam a prejudicar o candidato: o máximo que ele conseguiu expor, além de um pedido de desculpas, foi a ideia de que era apenas um “jovem irresponsável” antigamente (quando tinha mais de 30 anos de idade).

Em larga medida, a condução da campanha, por Crivella, foi o que me estimulou a escrever aqui. Acompanhei, por várias semanas, a disseminação de inúmeros boatos infundados no Facebook, no Twitter e no WhatsApp. Embora questionamentos à mídia possam ser feitos a qualquer instante, é notório perceber que, em geral, contra Crivella, emergiram vídeos, gravações e textos próprios; e, contra Freixo, argumentos a partir de vídeos, gravações, e textos do partido. A diferença é enorme: no primeiro caso, é fácil estabelecer ligação entre uma prova (como a fala de que a mulher ‘deve obedecer mais ao homem’) e uma crítica ao candidato (o desrespeito à figura da mulher). No caso de Freixo, essa ligação geralmente não é tão óbvia, e demanda certo esforço — o fato de a “família de Amarildo” não ter recebido todo o dinheiro de uma campanha em seu nome, por exemplo, não significa que os desejos dessa família não foram adequadamente atendidos, nem que a quantia em questão foi automaticamente para o bolso do candidato.

Para mim, esse tipo de argumento — que exige suposição por parte de quem aceita — é problemático. Cada vez mais, a campanha de Crivella aproveitou-se disso. Simultaneamente, eu repudiava tal atitude. Porém, à medida que a campanha chegava ao fim, parecia que os marqueteiros de Crivella adotavam estratégias ainda mais questionáveis. A “fuga dos debates”, para reduzir a exposição do candidato, com a desculpa de um “protesto” contra a mídia — convenientemente ignorado ontem, na Rede Globo. A exclusão / ocultação de vários comentários desfavoráveis à candidatura na página oficial do senador no Facebook, inclusive com o banimento de certos eleitores. A publicação escondida de um vídeo com direito de resposta concedido a Freixo, para evitar que o eleitorado lhe assista. Tais atitudes, a meu ver, não condizem nem com o ideal que espero de um político, nem com as palavras do próprio Marcelo Crivella, que poderia oferecer muito mais aos eleitores.

A essa altura, você provavelmente me lembrará que o “jogo sujo”, como eu mesmo disse, vem de ambos os lados. Você está correto. A campanha de Freixo, de fato, revirou o passado do senador — escavou polêmicas antigas, e inclusive se viu obrigada a usar politicamente uma acusação que disse que iria ignorar (a prisão de Crivella). Apesar disso, o impressionante é que tais críticas e acusações, no final das contas, são minimamente legítimas. Ao que tudo indica, o senador realmente disse e fez boa parte daquilo que lhe acusaram. É injusto com suas conquistas como parlamentar e político, mas não deixa de ser verdade. Por outro lado, impressionei-me com a quantidade majoritária de críticas a Freixo que, ora podem ser contestadas, ora advêm de ideais específicos do eleitorado. Não, a literatura sobre Direitos Humanos não prevê carta branca para bandidos (alguém gosta de sofrer com a criminalidade?!). Não, o fato de uma política ser “de esquerda” não significa necessariamente que ela seja ruim. Infelizmente, essas noções — junto com muitas outras — acabaram sendo proliferadas ao extremo no Rio de Janeiro, especialmente devido aos fracassos do PT e do PMDB nas várias esferas do governo.

No meio dessa confusão política toda, há aqueles eleitores que admiro profundamente — os que pedem propostas, e não apenas um cabo-de-guerra partidário. Entendo perfeitamente que muitas dessas pessoas viram a campanha ofensiva de Freixo como algo inadequado. Entretanto, queria expor um argumento que me faz analisar essa “onda de ataques eleitorais”: Crivella é figura conhecida e amplamente popular na política carioca; seu adversário, nem tanto. Essa “penetração” do senador enquanto candidato, infelizmente, significou durante muito tempo a negligência quanto aos possíveis motivos para criticá-lo. Contra um candidato carismático, e diante de baixas intenções de voto, os argumentos “contra a pessoa Crivella” passam a ser muito valiosos. É fácil se revoltar moralmente contra uma pessoa. Por outro lado, muitas pessoas não teriam nem o tempo, nem a paciência para ler um texto como esse — imagine se teriam para discutir os aspectos técnicos de cada proposta de cada candidato!

Para muitos, infelizmente, o que conta é a promessa de “quantas escolas abrir”, “quanto dinheiro investir”, “quantas obras realizar”, e assim por diante. Crivella argumenta que isso traz um compromisso do político com o povo, enquanto seu adversário nem toca nesse ponto. Não é por acaso: Freixo sabe muito bem que, no final das contas, essas promessas ficam apenas... promessas. Vazias, esquecidas e provavelmente ignoradas pelo eleitor depois de quatro anos de governo. Em grande parte, isso dá liberdade aos candidatos de prometerem o impossível, e citarem números e estatísticas sem nem saberem se a prefeitura tem condições de fazer tudo. Hoje, não há como Freixo surgir com todas as respostas — justamente por que não está no governo, e não tem acesso a todos os dados. A situação de Crivella é a mesma, porém a campanha (espertamente) não desiste de empregar dados na tentativa de conquistar votos e desmerecer o adversário.

Nessa reta final, até mesmo a campanha de Freixo não conseguiu resistir às pressões — lançaram no Facebook uma série de fotos com propostas especiais para cada bairro da cidade. Se você está no grupo dos que não veem propostas em Freixo, sugiro fortemente que procure isso. Li os programas de governo de ambos os candidatos, bem como algumas de suas ideias divulgadas na Internet (veja os programas de Crivella e Freixo). No caso de Crivella, a crítica do ‘programa de seis páginas’ é válida. A coligação do senador se apega a um documento simples, com algumas ideias expostas, mas sem muita profundidade. Termos como ‘ampliar 20%’ e ‘expandir 50%’ aparecem por todo o programa, porém em lugar algum é dito como essas metas sairão do papel e se elas são realmente relevantes e realizáveis. No caso de Freixo, comprovei o argumento de que a campanha é excessivamente acadêmica — a coligação apresentou uma dissertação de 67 páginas, em geral listando propostas, explicando os motivos delas, e as formas de realização. Independentemente do academicismo, é impressionante o que conseguiram fazer, mesmo sem muito acesso às informações da prefeitura.

Talvez o principal grupo de propostas que me aproxima de Freixo sejam aquelas que dão maior destaque às periferias da cidade, e que trazem verdadeira transparência ao governo. Ele e seus assessores comprometeram-se a avaliar os inúmeros contratos da prefeitura, procurando indícios de superfaturamento e irresponsabilidade, e disponibilizando os dados para que as pessoas — inclusive os futuros candidatos! — vejam com seus próprios olhos. Crivella, porém, apesar das promessas, ficou devendo essa, o que pode favorecer a continuidade da corrupção. Além disso, discordo da noção de que a governança deva estar voltada para a suposta ‘vitrine do Rio’ (a Zona Sul). Há outras regiões na cidade e, em larga medida, a atenção do governo precisa estar voltada para questões do cotidiano popular, como a cultura e as tradições locais, atualmente marginalizadas em nome de uma tal ‘modernidade’ que não atinge a todos igualmente. Talvez seja fundamental para o município abandonar essa noção de ‘tutela’ (cuidar das pessoas), em prol de uma governança mais inclusiva e que traga opiniões da população em todas as etapas do processo decisório. Em suma: o cidadão... merece ser ouvido.

Não concordo completamente com nenhum dos candidatos. Repudio as ideias que encaro como inaceitáveis, e os comportamentos que tiram a civilidade das candidaturas. Rechaço parte do idealismo de Freixo (conselhos em cada bairro da cidade?!), e critico a superficialidade dos argumentos de Crivella, nas propostas e nas críticas ao adversário. Como um todo, minha mente fez o seguinte raciocínio: existe um político que é velho conhecido, e talvez mantenha as coisas como estão, mas que não se comprometeu a mudar a política carioca (repetir que “O Garotinho não vai fazer parte do meu governo”, quando ele parece ser o principal aliado, não convence). Ao mesmo tempo, existe um político que não me representa em tudo, mas tem liberdade suficiente para fazer um governo responsável, que resolva parte da política (falta de transparência, gabinetes excessivamente partidários...). Ao escolher entre a possível manutenção dos problemas já existentes, e a possibilidade de mudança, meu voto será dedicado à mudança. Não quer dizer que Freixo tenha o ‘monopólio da virtude’ ou que seu governo tenha sucesso absoluto, mas, na minha opinião, é melhor que mais quatro anos da mesmíssima coisa de sempre.